3.4.11

Jazigo dos Duques de Palmela - III

Fica no cemitério lisboeta dos Prazeres o maior jazigo privado da Europa. Iniciada a sua construção em 1846 e terminado em 1849, foi desenhado pelo arquitecto maçon Giuseppe Cinátti, segundo instruções de Pedro de Holstein (Α:1781 - Ω:1850), o primeiro duque de Palmela.

Inicialmente, o espaço reservado aos Palmela - familiares no interior do jazigo e seus empregados no pequeno jardim de acesso, inumados entre os frondosos ciprestes - situava-se no exterior do cemitério, em jeito de cemitério privado.
Provavelmente, as mesmas leis que obrigaram as ordens religiosas do Porto a fechar os seus cemitérios privados, e a comprar talhões dentro de Agramonte e Prado do Repouso, acabaram por levar os duques de Palmela a doar terreno à Câmara Municipal de Lisboa, de forma a garantir a integração do Jazigo Palmela no interior do contíguo Cemitério dos Prazeres. Em suma: mais do que passarem para o interior, os duques de Palmela conseguiram que o cemitério crescesse para junto deles.

Aparentemente imbuído de simbologia maçónica, o Jazigo Palmela tem a forma de uma enorme pirâmide - durante o século XIX, o revivalismo egípcio varreu toda a Europa (e América do Norte) não sendo de descartar o impacto que ele também teve na concepção do jazigo - assente sobre um cubo (se pensarmos no espaço ocupado pela cripta subterrânea).
Mas esta não é uma pirâmide perfeita: é uma pirâmide inacabada. O topo não termina num vértice - união das quatro faces, das quatro arestas - mas numa nova face, paralela à base da pirâmide. Recorde-se que uma das lendas maçónicas conta que o Mestre Hiram Abiff, responsável pela construção do Templo de Salomão, foi assassinado antes de completar a obra, deixando o templo inacabado.

Nessa face, no lugar onde é usual colocar-se uma Pedra Benben para concluir a pirâmide (ou o obelisco), encontra-se uma estátua, que alguns autores atribuem a Calmels.
Essa estátua é uma figura feminina, várias vezes identificada como sendo o Anjo da Morte ou da Boa Morte (dependendo dos autores consultados...), e é, provavelmente, uma das Sete Virtudes: neste caso a Fé, representada como sendo uma mulher carregando uma cruz.
É ainda de nota que a estátua agarra um livro e um conjunto de chaves: simbologia atribuída a S. Pedro, a quem Cristo entregou as Chaves do Paraíso.
Não deixa de ser curioso que, desta forma, a pirâmide do Jazigo Palmela acabe por ser rematada com uma cruz, o que acontece com todos os obeliscos de Roma, que a mando do Papa Sisto V, no século XVI, foram exorcizados de todos os demónios e purificados da sua simbologia maldita pelo acrescento dessas cruzes. Mais curioso ainda é perceber que Pedro de Holstein não se encontra inumado no Jazigo Palmela, mas sim na Igreja de Santo António dos Portugueses, em Roma.

A magnifica construção ergue-se a Oriente, ocupando o último terço do espaço do talhão rectangular, de cota mais elevada do que os terrenos e construções que o rodeiam, limitado por um gradeamento de metal, constituído por peças repetidas em conjuntos de três, onde no centro de cada um se pode ver uma cabeça de leão (outro símbolo solar de inspiração maçónica).

Sete são os degraus que permitem chegar até ao portão. O número 7 é um dos três números mais importantes para a maçonaria; são eles o 3, o 5 e o 7; referências numerológicas aos três graus simbólicos de Aprendiz, Companheiro e Mestre.
Estes sete degraus representam ainda as sete Artes Liberais, que compunham o plano de estudos medieval, as sete idades do homem ou as Sete Virtudes Cardeais que conduzem ao auto-conhecimento, auto-domínio e auto-enobrecimento.

Entre o portão, que separa o talhão dos Palmela do restante cemitério, e os cinco degraus que dão acesso ao patamar de entrada no Jazigo, estende-se um tapete de irregulares pedras pretas e brancas, compondo doze losangos: certos autores especulam que o proverbial Templo de Salomão também apresentava pavimentos ou motivos decorativos formados pelo contraste de formas geométricas pretas e brancas, pelo que, ainda hoje, uma quadrícula de mosaicos brancos e pretos é o padrão comum do chão de muitos templos maçónicos.

Ladeando a passadeira preta e branca estão enterrados os empregados da família Palmela: mulheres do lado Norte e homens do lado Sul. Existem duas mulheres enterradas do lado Sul, todavia: talvez por desconhecimento do preceito maçónico que, inicialmente, assim distribuiu os lugares dos mortos; já que, na tradição maçónica regular, o Norte é a orientação reservada àqueles que ainda não capazes de ver a Luz, posto que o Sol, na sua trajectória de Oriente para Ocidente, não brilha no Norte. À vista disso, é frequente as lojas maçónicas não terem quaisquer janelas viradas para Norte.

No interior do Jazigo somos recebidos por um magnifico trabalho do celebrado Canova, talhado em mármore de Carrara: é o cenotáfio do 1º Duque de Palmela que, como já referimos, se encontra enterrado em Roma.

No centro da capela, iluminadas pela luz que entra por duas janelas, um par de magnificas peças escultóricas de Teixeira Lopes tomam conta do espaço, construidas por ordem do 3º Duque de Palmela.
Uma dessas peça tem um cunho claramente inacabado, mostrando mãos pesadas, grossas e pouco trabalhadas, numa figura feminina de traços perfeitos. São várias as interpretações que essas mãos inacabadas suscitam: há quem considere que ficaram propositadamente inacabadas e há quem defenda que o autor não conseguiu concluí-las.
Considerando a qualidade e beleza de toda a peça, mais a minúcia com que estão trabalhadas as mãos das restantes personagens, tenho dificuldade em acreditar que Lopes deixasse esta imperfeição de modo intencional, mas Moita Flores, por exemplo, no livro Cemitérios de Lisboa: Entre o Real e o Imaginário, justifica-a com base na morte do escultor.

Antes de descer à cripta é possível observar um trabalho de Célestin Calmels capaz de tirar a respiração. Outra figura feminina, ao lado do pequeno altar da capela carregado de castiçais dourados e um Bíblia aberta, está uma porta fechada onde uma perfeita mulher de mármore parece carpir a morte do jovem filho da Duquesa de Palmela.
O drapeado da túnica que envolve a mulher é fluido e parece capaz de se mover com o nosso toque.

Descidos os três degraus que nos conduzem à câmara principal da cripta, aguarda-nos um espaço pequeno, que um tecto amarelo torrado com inúmeras papoilas dormideiras pintadas a azul - símbolo do sono eterno, da eternidade - faz parecer ainda mais pequeno. Em redor dessa câmara, abre-se um corredor que a contorna, apresentado doze nichos rasgados na pedra que conservam os caixões que contém os restos mortais da família Palmela.

Visitar o Jazigo Palmela é uma experiência única. Recomenda-se vivamente.




2 comentários:

  1. boa tarde.
    visitei-o no passado sábado, através da junta de freguesia dos prazeres.
    gostei do seu texto, bem como das fotografias.
    um abraço.

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    1. Obrigada pelas boas palavras.
      O jazigo é uma peça fantástica, cheia de detalhes interessantes e que deveria ser mais divulgado, afinal é único.

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