4.11.17

AGM 2017 - Atenas, Grécia

Anualmente, os membros da Association of Significant Cemeteries of Europe reúne em assembleia (AGM - Annual General Meeting), durante um evento de três dia,s dedicado às temáticas que orbitam em torno dos cemitérios.

Cartaz AGM 2017
Estes encontros anuais permitem que tafófilos de vários países possam partilhar experiências, divulgar livros, visitar cemitérios, conhecer costumes fúnebres, ver e fazer apresentações sobre temas cemiteriais e conviver com outras pessoas com interesses semelhantes.
Este ano, o AGM 2017 teve lugar na Universidade de Harokopio em Atenas, na Grécia, entre os dias 5 e 7 de Outubro, com o tema Ancient Greek Art and European Funerary Art.
O programa do evento incluiu três dias cheios de visitas, experiências e apresentações: 29 apresentações, 36 cientistas e pesquisadores, 2 palestrantes principais, 3 cemitérios, 1 ritual funerário grego, 2 duas recepções oficiais 
e um fantástico grupo de cerca de 100 pessoas (aguardamos números oficiais de participantes). Podem consultar o programa completo através deste link.

O primeiro dia começou com a AGM (o detalhe da reunião pode ser consultado no site oficial da associação), mas não posso deixar de destacar dois pontos muitos relevantes para a comunidade tafófila portuguesa:

  • Na apresentação dos futuros membros, a Câmara Municipal de Lisboa foi apresentada como uma das instituições que está em processo de adesão à associação, o que coloca em grande destaque os cemitérios da capital portuguesa. Finalmente, os cemitérios fantásticos que temos em Lisboa (como Prazeres, Alto de São João, Ajuda, Lumiar, Benfica,...) vão ter oportunidade de fazer oficialmente parte das rotas europeias de cemitérios e cultura cemiterial. Parabéns à CML e aos seus colaboradores e votos que a candidatura chegue rapidamente a bom porto!
  • Nos destinos dos próximos AGM, ficámos a saber que 2018 será em Innbruck (Áustria), em 2019 será em Ghent (Bélgica) e, um dos locais propostos (e ainda é apenas proposta) para 2020 é a cidade do Porto. Parabéns aos Cemitérios do Porto pelo trabalho de excelência que têm vindo a desenvolver de forma regular nos últimos anos, promovendo os seus cemitérios com visitas, concertos, percursos. Faço votos que a proposta se torne numa realidade e que, em 2020 o Porto seja a capital europeia da tafófilia, recebendo este evento internacional

Dr.ª Sophie Oosterwijk e o monumento
funerário de D. Afonso, em Braga
Ainda durante a manhã, moderadas pela Prof. Evangelia Georgitsoyanni (responsável pelo Editorial Board e o Organizing Committee), foi possível ouvir as palestras principais pela Dr.ª Sophie Oosterwijk e pela Dr.ª Julie Rugg. 
Destaque para a extraordinária peça funerária de D. Afonso, primogénito do rei D. João I e que faleceu aos 10 anos, tendo sido inumado na catedral de Braga, parte da apresentação da Dr.ª Sophie, e que me vai obrigar a visitar novamente a cidade de Braga a curto prazo.

Depois do almoço, em sessões paralelas, foram muitas as apresentações, de diversos cemitérios pela Europa: de Espanha à Croácia, passando pela Bélgica e, claro, com grande ênfase para os cemitérios gregos. 
É com satisfação que se consegue perceber que, cada vez mais, os cemitérios e os monumentos funerários são tema de estudo, com profundidade e seriedade, e a divulgação destes trabalhos e deste tipo de eventos é fundamental para o crescimento e maturação da área.
O dia terminou com uma recepção na Câmara Municipal de Atenas, que nos ofereceu um cocktail nas suas belíssimas instalações.

O segundo dia iniciou com novo painel no auditório principal, onde tive o prazer de representar Portugal, fazendo uma apresentação sobre o Jazigo Palmela, do cemitério lisboeta dos Prazeres.

The Palmela Mausoleum in the Prazeres Cemetery, Lisbon: A Symbolic interpretation por Gisela Monteiro
(foto de Valeria Celsi - obrigada!)
Não posso deixar de agradecer novamente ao Dr. Licínio Fidalgo por toda a disponibilidade durante a fase de preparação dos trabalhos.
Espero que a apresentação e a contextualização histórica do surgimento dos cemitérios em Portugal tenha também sido um convite para sermos visitados, porque os nossos cemitérios têm muita arte e muitas histórias para contar. Pelo feedback que obtive no intervalo, deixámos muita gente curiosa e com vontade de saber mais sobre a nossa história e os nossos cemitérios.
Logo que a publicação das actas da conferência esteja concluída disponibilizarei online o paper que esteve na origem da apresentação.

Kerameikos
O dia continuou com mais apresentações, seguida de uma visita ao cemitério de Kerameikos, onde passeámos entre marcos tumulares datados de 400 a.C., antes da visita ao museu onde estão guardadas algumas das peças originais, descobertas durante os trabalhos arqueológicos.

Seguiu-se uma viagem até Kifissia, nos arredores da cidade de Atenas, onde tivemos a oportunidade de experimentar um ritual funerário tradicional grego, normalmente celebrado passados 40 dias após a morte de um ente querido, em que os familiares e amigos se reúnem para beber café grego (feito de uma forma em que a bebida não é coada, mantendo as borras para serem bebidas com o café), pequenos biscoitos secos, uma bebida alcoólica parecida com cognac e um bolo tradicional, chamado koliva, feito de frutos secos e sementes, misturado com açúcar e trigo cozido.
Koliva
O bolo é depois desfeito e distribuído pelos convidados em pacotinhos individuais, em conjunto com uma colher.
Foi uma experiência diferente e muito enriquecedora, também por ter sido acompanhada pelo padre ortodoxo da paróquia.
Seguiu-se uma breve visita ao cemitério de Kifissia, aberto propositadamente, um cemitério em uso e com monumentos do século XX e XXI, que terminou já com o pôr-do-sol, o que proporcionou imagens muito bonitas.

O dia terminou nas instalações da Câmara Municipal de Kifissia, foram apresentadas as últimas palestras da conferência, antes de um simpático jantar buffet.

No dia seguinte, bem cedo, fizemos uma visita guiada ao belíssimo Primeiro Cemitério de Atenas, com monumentos maravilhosos, grandiosos e esculturas de autores de renome (este cemitério será alvo de um artigo dedicado, pelo que não entraremos agora em muito detalhe).
Primeiro Cemitério de Atenas
Fica só a nota, para os futuro visitantes: não se esqueçam de usar repelente para melgas e mosquitos, uma vez que existem muitos e bastante agressivos entre os ciprestes do cemitério.
Em último lugar, para fechar os fantásticos três dias dedicados à tafófilia em Atenas, tivemos a oportunidade única de visitar o Museu da Acrópole, tendo como guia o Dr. Georgios Spyropoulos, Director-Geral de Antiguidades e Herança Cultural.

Uma experiência a divulgar e repetir. Para o ano há mais, em Innsbruck!

AGM 2017 in Kerameikos (foto ASCE)
O álbum fotográfico oficial do evento pode ser acedido através deste link.


4.4.17

A Morte em Lisboa. Novos Dados, Novas Problemáticas

No próximo dia 8 de Abril, no Museu Arqueológico do Carmo, em Lisboa, irá decorrer o colóquio "A Morte em Lisboa. Novos Dados, Novas Problemáticas", organizado pela Comissão de Estudos Olisiponenses da Associação de Arqueólogos de Portugal.



1.4.17

Visitas Guiadas - Cemitérios de Lisboa

Já está disponível o programa de visitas guiadas nos Cemitérios de Lisboa para os meses de Abril, Maio e Junho.
Escolham o local ou o tema que mais vos interessa e inscrevam-se já enviando um email para dmevae.dgc@cm-lisboa.pt.


E no dia 20 de Maio, a visita é nocturna. 


11.3.17

"Da Mortalha ao Caixão" - Elegia


O volume número 5 da Elegia - a revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro - apresenta-nos um dossier especial sobre Urnas Funerárias. Nesse dossier podem encontrar um novo artigo meu, onde apresento a história do caixão, intutilado "Da Mortalha ao Caixão".
Contactem a AAFC e assinem a revista para receber as cópias impressas vale a pena, mas para já, fiquem com o formato digital.

Boas leituras, caros Tafófilos!

9.12.16

Falecidos Famosos: Florbela Espanca

Ao entrar no cemitério de Vila Viçosa, guardado no interior do castelo, limitado pela muralha ameiada, o primeiro sepulcro que vemos é o da poetiza Florbela Espanca (Α:1894 - Ω:1930).

Nascida a 8 de Dezembro, viria a suicidar-se também a 8 de Dezembro, 36 anos depois.

Pelo caminho, uma vida cheia de tudo, mas principalmente cheia de dores que a marcaram profundamente: casamentos fracassados, crianças que nunca nasceram, a angustia da sociedade mesquinha e amores por cumprir e vários livros que ficam para sempre, como Charneca em Flor.


Amar!
Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui... além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente...
Amar! Amar! E não amar ninguém!  
Recordar? Esquecer? Indiferente!...
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente! 
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar! 
E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar... 
Florbela Espanca, in "Charneca em Flor" 


9.8.16

"Sobre Turismo Cemiterial" na Revista Elegia

No número 4 da revista Elegia (revista semestral da AAFC Associação de Agentes Funerários do Centro) podem ler o meu artigo "Sobre Turismo Cemiterial", no qual desenvolvo esta temática, ilustrando-a com fotografias minhas de vários cemitérios europeus que visitei.
Para além do artigo, podem ainda encontrar várias referências ao blog Mort Safe.



A revista Elegia é uma publicação semestral dedicada ao sector funerário, com uma diversidade de colaborações que permite extravasar o público-alvo inicial e ser do interesse do leitor comum e, especialmente, do leitor tafófilo. 
Os números têm sido subordinados a temáticas específicas, organizadas em dossiers, cobrindo os mais variados temas; até agora foi publicado um dossier sobre Cremação (n.º1), sobre Transportes Funerários (n.º2) e sobre Cerimónia Fúnebre, Crenças e Rituais (n.º3).



18.6.16

Cemitério de Montjuïc

Panteón Augusto Urrutia i Roldán
No passado mês de Maio tive a fantástica oportunidade de passear entre as campas, gavetas e mausoléus (na Catalunha chamam-lhes panteões) dos cemitérios de Montjuïc e Poublenou.
As peças são fantásticas, gigantescas, assombrosas e todo o tempo é sempre pouco para visitar (e fotografar um sitio assim).

Montjuïc tem uma dimensão assustadora, correndo monte acima e estendendo-se verdadeiramente até se perder de vista.
A inumação é praticamente toda feita com recurso a gavetas, em paredes altas, decoradas com pequenas pedras que foram retiradas do próprio espaço agora ocupado pelo cemitério, de tonalidade amarelada. 
As pequenas portas. de metal ou de pedra, decoradas com inscrições e desenhos enchem-se de flores, deixadas pelos familiares com recurso a enormes escadas móveis em metal.
As ruas deste cemitério do século XIX - inaugurado a 17 de Março de 1883 - vão-se estendendo monte acima, começando no sopé quase sobre as águas do porto comercial de Barcelona. Sobre o cemitério, enormes e ameaçadoras gaivotas vão esvoaçando e soltando gritos, agressivas por sentirem que estamos a invadir o seu espaço.
Por entre os ciprestes e as cruzes, conseguimos vislumbrar os contentores metálicos coloridos, acabados de chegar do mar ou prontos para partir, e as enormes gruas que os movimentam. É um contraste muito realista, que sobrepõe a Morte e a Vida numa única imagem, num único instante.

O cemitério de Montjuïc nasceu para ser o Monumento dos Monumentos, numa altura em que era possível sonhar ainda com a riqueza que enchia os cofres de Barcelona. 
Os planos arquitectónicos da época mostram um detalhe e cuidado verdadeiramente grandiosos, mas foi necessário simplificar e atalhar caminho. Os restantes cemitérios não conseguiam dar resposta às necessidade da metrópole e, ao mesmo tempo, a crise financeira impedia a construção inicialmente planeada.
Ainda assim, acreditem, o espaço é de tirar a respiração.
A visita mais interessante é, como sempre em todos estes locais, às zonas mais antigas que, felizmente neste caso, são as mais baixas.
Panteón Buhigas
A perspectiva turístico-cultural do espaço está sempre presente e, para além das brochuras com mapas que são distribuídas gratuitamente na entrada dos cemitérios é também possível adquirir livros informativos muito bons e que permitem perceber a história do local, o contexto social e económico em que foi construído e quem são as pessoas que aí estão enterradas e que construíram os seus monumentos, com grande destaque para a arte em si: quem fez, em que estilo se enquadra, etc.
Existe um percurso artístico recomendado, onde junto de cada peça se pode encontrar uma placa com informação detalhada.

É muito fácil e reconfortante ser tafófilo num cemitério de Barcelona.


PS: com este post não posso deixar de agradecer a Tony Collbató e Juanjo Macias a forma calorosa como me receberam em Barcelona: sem eles, a minha experiência não tinha sido tão rica, tão cheia, tão mágica: Gràcies, amics!
O meu agradecimento também aos Cementiris de Barcelona por toda a disponibilidade e por tratarem tão bem dos seus espaço e dos seus visitantes. Que inveja, que orgulho.

É uma felicidade perceber que a comunidade tafófila não tem fronteiras para os afectos.

Para quem tem facebook, não esquecer de aderir ao grupo Apoyamos la Ruta Europea de Cementerios.

15.3.15

Monumentos Memoráveis: Thérèse Schwartze

Nos arredores de Amesterdão fica o cemitério De Nieuwe Ooster (O Novo Oriente), considerado o cemitério holandês com maior número de campas.

É um cemitério completamente diferente de todos os que já visitei: cada campa é um monumento independente, livre, sem obrigações legais ou linhas de orientação camarária; pelo menos, foi isso que retive, depois de um passeio pelo espaço.
Construído em três fases distintas (1889, 1915 e 1928), é um verdadeiro cemitério-jardim de tradição vitoriana, com caminhos ondulantes, perdidos entre árvores e arbustos. Neste momento, funciona ainda como Jardim Botânico.

Entre campas feitas de madeira, vidro colorido, metal ou pedra, encontramos, numa curva do jardim quase escondido pela folhagem verde em volta, um túmulo digno de uma princesa das histórias dos Irmãos Grimm: é a campa da pintora Thérèse Schwartze (Α:1851 - Ω:1918).
Tendo nascido em 1851 e pintado toda a vida, aprendendo as primeiras técnicas com o pai - também pintor -, mas passando por Paris, Munique e acabando por se estabelecer em Amesterdão, os seus trabalhos mais destacados são retratos, maioritariamente das figuras cosmopolitas mais eminentes do seu tempo.
É assim que ela está apresentada no túmulo: Therese van Duyl-Schwartze - Pintora de Retratos.
Em 1918, na sequência da morte do marido, a artista não resistiu ao choque e à doença que já a enfraquecia e morreu, com a idade de 61 anos.
Inicialmente, foi enterrada no famoso cemitério holandês de Zorgvlied, mas mais tarde transladada para De Nieuwe Ooster.
A sua irmã Georgine - uma escultora famosa - fez-lhe o monumento funerário, usando uma máscara mortuária como base para o rosto. 


O monumento é lindíssimo e a colocação é perfeita. A minha peça favorita do cemitério de De Nieuwe Ooster. 


18.1.15

Vídeo "Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude"

A inauguração da exposição de fotografia Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude ocorreu ontem, dia 16 de Janeiro, na galeria de arte do Palácio dos Aciprestes, sede da Fundação Marquês de Pombal.
Numa sala cheia, reunida para a primeira sessão do ciclo de palestras sobre terror Sustos às Sextas, foi feita uma breve apresentação, seguida de uma visita à exposição. 
Até final de Janeiro podem ainda (re)visitar o espaço, em preparação para a próxima palestra dos Sustos às Sextas, dia 13 de Fevereiro.

Para quem esteve presente, o vídeo que se segue é um complemento; para quem não foi ainda ao Palácio dos Aciprestes, serve de teaser.





14.12.14

Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude

No dia 16 de Janeiro de 2015 será a inauguração da minha nova exposição de fotografia, de temática tafófila: Da Pedra aos Ossos: Observação do Limiar da Infinitude.
Em dezanove imagens a preto-e-branco, explora-se os limites entre a pedra esculpida e o osso humano, através de caveiras - o speculum mortis por excelência - recordando ao Homem a sua efemeridade.


A exposição será no Palácio dos Aciprestes da Fundação Marquês de Pombal, em Linda-a-Velha, integrada no programa do ciclo de palestras de terror Sustos às Sextas.